Criada na Baixada Fluminense, Vera Araújo conta sobre os dias de criança quando já gostava de acompanhar o trabalho de jornalistas. Mesmo sem saber ao certo o que um jornalista fazia, a pequena Vera já se interessava pela leitura de notícias nos jornais e acompanhava todos os domingos o Jornal do Brasil, seu favorito na época, quando iniciou seu interesse pelas editorias de política e segurança pública.
“Havia uma apresentadora, na época, que eu acompanhava muito, fazendo leitura de notícias, isso despertou em mim a vontade de ser jornalista. De ler jornais”, contou ela nesta entrevista exclusiva à Abraji.
Os anos passaram e, no período de vestibular, ingressou na primeira turma de jornalismo da UERJ, que até então só tinha curso de relações públicas. Caloura, cheia de curiosidade, ela conta sobre como foram suas primeiras experiências.
“Meu primeiro estágio, por exemplo, era verificar o que era vendido dos jornais O Dia e O Globo. Tinha que andar em várias bancas de jornal, andava quilômetros — mas até isso eu sempre tiro uma lição: nada é por acaso”.

Vera Araújo. Fonte: Arquivo pessoal.
Gastar sola de sapato
Foi assim que Vera começou a conhecer vários pontos da cidade do Rio de Janeiro, andando pelas manhãs. Em uma época sem celulares nem GPS, contava com uma boa caminhada e algumas fichas telefônicas, dadas pela redação, para usar nos orelhões. “Fui aprendendo onde ficavam as coisas. Isso me ajudou muito na minha carreira, para conhecer os lugares, quando eu ia com os motoristas”.
Ela frisa a importância do “olho no olho” ao fazer jornalismo. “Aquele hábito, naquela época, de ‘gastar sola de sapato’ e de ‘olho no olho’. Hoje, considero que as pessoas estão ficando muito mais na redação, o que não acho bom. Tem que ir para a rua buscar informação, porque, quando o entrevistado te vê de perto, cria empatia, passa a confiar em você. Esses hábitos são saudáveis; e eu defendo isso com convicção.”
O início no jornalismo
Depois daquele período de andar de banca em banca, Vera iniciou outro estágio. No Jornal do Brasil, viu uma pessoa sentada no meio da redação: era o filho do dono do jornal, editor do Caderno de Cidades, Manoel Francisco Nascimento Brito. Perguntou a ele: "Como é que entra nesse jornal?".
“Ele olhou para mim e disse: ‘Vai ali, tem uma administração, deixa seu currículo, que eles chamam algumas pessoas’. Fui chamada para esse teste com mais de trinta pessoas, e, no final dessa peneira, só ficaram três: eu e mais duas amigas — que continuam minhas amigas até hoje.”
Agora integrada à rotina de uma redação, Vera detalha o aumento, na época, dos assassinatos em série , as chacinas, na Baixada Fluminense, uma área que conhecia bem, por ter morado e convivido na região.
“Chegava ao jornal e perguntava para meu chefe, no meu primeiro horário, sete da manhã: ‘Qual é a chacina que vamos fazer hoje?’, infelizmente. Então desenvolvi um bom trabalho e comecei a querer entender o que havia por trás disso. Foi aí que despertou em mim o jornalismo investigativo.”
A revelação das milícias
Vera entrou n'O Globo em 2000 e, em 2005, já com 17 anos de carreira, tudo mudou. Intrigada com o número alarmante de chacinas na época, começou a investigar militares e policiais que atuavam nos grupos de extermínio nas comunidades do Rio de Janeiro, o que levou à descoberta dos grupos milicianos.
“Acabei descobrindo o que viria a ser a milícia, que na época nem tinha esse nome. Como fazer a denominação dessa nova versão de grupos que matam pessoas para extorquir dinheiro de moradores? Porque essa era a grande diferença: a extorsão nas comunidades e nas favelas. Daí veio o nome de milícia. E pegou.”

Matéria “Milícias de PMs expulsam tráfico”, de março de 2005. Fonte: Arquivo pessoal.
A investigação eclodiu e Vera descobriu que a atuação desses grupos, agora chamados de milícias, se estendia por diversas áreas do Rio de Janeiro como Jacarepaguá, Campo Grande e Rio das Pedras.
“Estávamos com ouro nas mãos, uma superinformação, e acho que não tínhamos dimensão do que isso viria a se tornar. Foi um marco na minha história como jornalista.”
A matéria foi intitulada “Milícias de PMs expulsam tráfico” e revelou que 42 favelas na Zona Oeste do Rio estavam sob domínio de policiais e ex-policiais militares que haviam entrado para disputar espaço com as facções de traficantes. A reportagem rendeu a Vera o Prêmio Especial Tim Lopes de Jornalismo Investigativo em 2009.

Vera no Prêmio Especial Tim Lopes de Jornalismo Investigativo ao lado de seu colega Mauro Ventura, em 2009.
Caso Marielle e machismo nas coberturas policiais
Treze anos depois, em um dia de folga, Vera recebeu a notícia do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes.
“Eu conheci a Marielle durante a CPI das Milícias. Quando soube que ela havia sido assassinada, não acreditei. Pensei: ‘Eu tenho que entrar nesse caso, tenho que investigar’. Nem precisei decidir conscientemente, já comecei, na minha folga mesmo, e descobri duas testemunhas”.
Eram testemunhas que a polícia não tinha localizado. O trabalho da jornalista abriu novas linhas de investigação fundamentais para a apuração do caso.
“O jornalista tem esse olhar. Somos os olhos da sociedade e contadores de histórias. Precisamos investigar, trazer essas coisas à tona, mostrar para o leitor, para a sociedade, que isso existe. E, quando é algo nocivo, como as milícias, temos que combater. Uma forma de combater isso é com boas matérias, bem fundamentadas e contextualizadas”, frisa.
Após uma série de reportagens sobre o caso, tornou-se coautora do livro "Mataram Marielle" (finalista do Prêmio Jabuti em 2021, na categoria Documentário e Biografia).

Cobertura do Caso Marielle, no julgamento de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, em outubro de 2024. Fonte: Arquivo pessoal.
“No caso da Marielle, tenho muito orgulho do nosso trabalho como jornalistas — não só o meu, mas de todos os jornalistas investigativos que atuaram naquela época. Tudo isso é jornalismo investigativo, se dependesse só do poder público, não teria chegado onde chegou. É um trabalho do qual tenho muito orgulho e muito prazer de fazer, porque estamos mudando a história”.
Vera também destaca as dificuldades como uma jornalista mulher nas coberturas de investigação policial.
“Se torna muito mais desafiador quando é uma jornalista mulher. Porque, infelizmente, existe um machismo, uma misoginia muito grande nos órgãos policiais. Eu ouvia muito, principalmente no início da carreira, que os policiais preferiam repassar informações para jornalistas homens. E, quando ia uma jornalista mulher, às vezes ela era assediada. Hoje acho que está bem melhor, sem dúvida, mas ainda é um desafio para a mulher jornalista.”
Vera destaca o legado dessas duas coberturas mais notáveis em sua carreira.
“As duas são muito importantes na minha vida; não tem como dizer que uma pesa mais. A milícia foi um marco e o caso Marielle foi um fortalecimento do jornalismo investigativo, sem dúvida. Isso mostra que o jornalismo investigativo tem poder de mudar a história.”
Mudança na cobertura policial
Com a explosão de informação nas redes sociais, a jornalista teve que se adaptar às mudanças na redação, principalmente na segurança pública.
“Não vivemos mais atrelados apenas ao que a polícia ou o Ministério Público divulgam. Você recebe uma informação, e isso é muito importante, porque as fontes, hoje, principalmente com o Instagram, chegam até você.”
Manter à risca a checagem de fatos é essencial para um bom jornalismo.
“Recebo muita coisa das fontes, mas verifico tudo. Um princípio básico para mim é: não publique nada sobre o que você tenha dúvidas.”
Ela aconselha que, para um jornalismo de qualidade, é preciso dar valor à credibilidade do jornalista, ainda mais em tempos de IA e fake news.
“Meu maior crédito, nesses quase 40 anos de profissão, é justamente meu nome. Prezo muito por isso, porque é minha essência, é o que faz as pessoas acreditarem no que eu escrevo. As pessoas confiam em você, confiam no seu trabalho. O nome do jornalista é muito importante. Tenho muitos leitores que leem porque vem o meu nome, assim como confiam em outros colegas com seriedade”.
Segurança e caso Tim Lopes
Discutir questões de segurança com repórteres que cobrem assuntos sensíveis, os quais envolvem risco direto ao profissional, é dever das redações e empresas de comunicação. Essa preocupação foi marcada principalmente após o assassinato de Tim Lopes, jornalista da TV Globo e colega de profissão de Vera, em 2002.
“Acho que o marco, para a gente se proteger, foi depois da morte do Tim Lopes. Foi uma coisa muito trágica, porque o Tim era meu amigo — sentávamos na mesma bancada. Além da relação pessoal, tínhamos uma relação profissional muito próxima; ele me ensinou muita coisa. Isso é um balde de água fria para qualquer jornalista, principalmente para quem pretende ser jornalista investigativo.”
O fato levou à criação da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Após três meses do assassinato de Tim, o jornalista Marcelo Beraba convidou, por e-mail, 44 repórteres e editores de diferentes veículos e Estados brasileiros a unirem-se em uma nova associação. Em dezembro daquele ano, cerca de 140 jornalistas decidiram criar a instituição.
“A Abraji é uma ótima rede, na época do Tim ainda não existia. Hoje temos uma rede de proteção muito maior. Minha dica é essa: sempre planejar, ter sua equipe bem fechada, um protegendo o outro. Acho que é por aí: analisar os riscos, sempre com a chefia.”
Criada após a morte de Tim Lopes e influenciada pela gravidade desse crime contra o jornalista e o jornalismo, a Abraji reitera a importância de as redações adotarem protocolos de segurança e oferecerem treinamento para coberturas de risco.
Conselhos para os futuros jornalistas
Vera incentiva o entusiasmo dos jornalistas, não só em início de carreira, e deixa alguns conselhos valiosos.
“Em toda matéria, eu me sinto como uma foca — você vê meu entusiasmo, não é uma coisa forçada, vem de dentro. Acho que você precisa ter alma de jornalista. É importante influenciarmos os jovens, os futuros jornalistas investigativos, porque daqui a pouco estaremos deixando para vocês esse legado, essa sementinha.”
Para as mulheres jornalistas que anseiam cobrir segurança pública e pautas policiais, ela afirma: “Você tem que focar naquilo que faz; isso sempre vai te destacar acima de qualquer tipo de machismo estrutural. Vai causar reação, porque existe vaidade, principalmente entre os homens, aquela disputa, uma tentativa de menosprezar, de minimizar nosso trabalho. Mas acho que um bom trabalho responde por si. É focar, sempre analisar, estar atenta, estudar, ler, sempre melhorar.”
Ela ainda ressalta o valor da observação e dedicação de um bom repórter investigativo e incentiva a busca por capacitações na área. “Eu sou muito observadora, acho que isso é muito importante. Eu reporto 24 horas, não tem jeito. Acho que é minha paixão largar tudo, é uma missão, a missão que acho que o jornalismo investigativo carrega.”
“Vocês vão dar de dez a zero na gente, porque vão brilhar cada vez mais, principalmente com a Abraji promovendo cursos que abrem a mente”, afirma.
Homenagem na abertura do Congresso
Fatima Souza e Vera estarão presentes durante o Congresso da Abraji, que acontece de 30 de julho a 1º de agosto no Campus Paraíso da UNIP, em São Paulo. A homenagem acontecerá na tarde de quinta-feira, 30 de julho, no teatro da universidade, com a exibição de um documentário sobre a carreira de ambas, produzido sob a coordenação de Juliana Dal Piva, vice-presidente da Abraji.
Patrocínio
Saiba quem são os patrocinadores, apoiadores e parceiros que tornaram o 21º Congresso possível.
Os patrocinadores desta edição estão divididos em cinco categorias.
Diamante: Google, TikTok
Platina: Transparência Internacional - BR (TI-BR)
Ouro: Agence Française de Développement (AFD), Globo, Jusbrasil
Prata: Alma Preta, Itaú
Bronze: Abracom (Associação Brasileira das Agências de Comunicação), Agência Pública, Amado Mundo, Instituto Sou da Paz, JSK Stanford, Oceana, piauí, Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Todos pela Educação
O evento conta ainda com o apoio institucional das organizações: CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), IACC (Conferência Internacional Anticorrupção), Instituto Talanoa, ITS Rio, Jornalistas & Cia, Projor, Posit.
Parceria de Inclusão e Diversidade: Basília Rodrigues, Eficientes, Fundação Lemann, Instituto IDEM, YouTube.
Parceiros: Agência Mural, Airalo, Babushka, Jet Brasil Patinete, Jota Júnior, Núcleo Jornalismo, Oboré, SEJ, Textual/DiversaCom.
Organizações interessadas em patrocinar o 21º Congresso da Abraji e colocar sua marca junto ao mais importante encontro de jornalistas do Brasil podem solicitar mais informações pelo e-mail: [email protected].
Serviço
21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji
Local: Campus Paraíso da UNIP - Universidade Paulista
Endereço: Rua Vergueiro, 1.211 - Paraíso - São Paulo
Data: 30 de julho a 1º de agosto de 2026
Mais informações: congresso.abraji.org.br
FAQ: https://congresso.abraji.org.br/faq