Jornalismo policial e televisão sempre foram certezas na vida de Fatima Souza, mesmo quando a realidade se impunha e colegas esbravejavam que a área não era feita para mulheres. Besteira. Persistente e pioneira, depois de insistir muito com o chefe, conseguiu a chance de cobrir as férias de um colega.
A primeira pauta tratava de um feminicídio. Depois de ir à delegacia e de o delegado falar que o assassino estava foragido, a jornalista decidiu ir à casa do acusado. Chegando ao local, quem também estava era o homem ainda ensanguentado e com a arma na mão. Fatima o segurou pelos braços, começou a puxá-lo para sentar e dizer que estava ali para ouvir o lado dele da história.
O assassino confessou o crime à repórter e a gravação serviu como prova para a polícia. A partir dali, Fatima foi a primeira mulher a cobrir crimes para a televisão e se consolidou como uma das mais importantes repórteres investigativas do país. Já são mais de 40 anos de carreira, com diversos furos de reportagem, como a descoberta do PCC, e passagens pela TV Cultura, Band e Record. Atualmente, aos 69 anos, ela é repórter do SBT em São Paulo.
Como forma de reconhecimento à longa dedicação de Fatima Souza à cobertura da segurança pública, a Abraji a homenageia juntamente com a jornalista Vera Araújo, do jornal O Globo, no 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. O evento acontece de 30 de julho a 1° de agosto no Campus Paraíso da UNIP, em São Paulo. A cerimônia de homenagem acontece às 16h30, no primeiro dia do evento, e terá transmissão simultânea para quem estiver inscrito na modalidade online.
“Eu sempre tive vontade de fazer jornalismo policial, contar a história das vítimas, das famílias que ficaram e que são retrato da violência na nossa cidade e no nosso país”, disse a jornalista.
A infância
Na infância, Fatima vivenciou em casa muitas das histórias que hoje reporta. “Tive uma infância muito difícil, recheada de alcoolismo e violência doméstica, e eu pensava que, futuramente, se eu fosse jornalista, poderia retratar isso.”
A primeira referência e inspiração na vida foi a avó italiana, Dona Julieta Lippi, “uma mulher porreta pra porra”, define Fatima. Ela a ensinou a lutar pelas coisas certas e a incentivou a estudar para ter o próprio dinheiro, profissão e ser independente.
O primeiro emprego foi aos 11 anos, porque precisava ajudar a família. Cursar a faculdade também não foi fácil, precisava trabalhar de dia e estudar à noite. “Fiz faculdade porque eu mesma trabalhei e paguei. A faculdade é uma coisa muito divertida, muito importante, você cresce muito. Todo mundo deveria fazer, mas, infelizmente, nosso país não proporciona essa possibilidade para todos.”
“Entrei no diretório estudantil e já comecei a revolucionar e fazer greve na faculdade. Porque eu lembro que, em um período, eles decidiram que só iriam entregar as provas para quem tivesse pago as mensalidades. Eu achei aquilo um absurdo. Primeiro, porque expunha quem não pagou [...] Segundo, porque devia haver alguma interpretação da lei que desse o direito de o cara atrasar e pagar no mês seguinte. Aí, paramos a faculdade, fizemos protesto e deu certo. A direção da faculdade voltou atrás. Com isso, aprendi até um pouco a saber lutar pelo meu direito e pelo que era o correto. Então, foi uma experiência magnífica”, relembra Fatima.
Casca-dura
Durante muito tempo, prevaleceu a imagem do repórter policial como um homem casca-dura, sem medo e treinado para não demonstrar qualquer sentimento, mesmo diante de histórias tão tristes e desoladoras. Mas Fatima representa o oposto. Ela acredita na sensibilidade e na importância de tratar cada personagem com humanidade e respeito.
“No dia em que não sentir mais uma mãe chorando por causa do filho que morreu, um pai chorando pela filha que foi estuprada ou uma família arrasada porque alguém da família foi morto, eu não faço mais isso. É mentira que você perde a sensibilidade com o tempo. Você continua sentindo igual à primeira matéria [...] Mas fico muito feliz que essas histórias me comovem, me abalam, me fazem chorar, porque isso mostra que sou ser humano.”
A jornalista acredita que as experiências pessoais também moldaram a forma como ela vive a profissão. “Repórter que nasceu pobre, morou na periferia e teve que pegar ônibus como transporte, a maior parte do tempo da sua vida, tem mais sensibilidade, sim, porque enxerga o que viveu.”
O jornalismo policial é uma profissão que envolve riscos de segurança. Por isso, para Fatima, é importante não deixar o medo atrapalhar na hora em que é preciso agir racionalmente. Ela relembra quando precisou fazer uma matéria na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, e um homem a abordou com um revólver na cabeça: "Tá fazendo o que aqui, quem autorizou? Que merda que você tá mostrando?", lembra ela.
“Se, naquela hora, você começar a chorar... Aí, não. Pelo amor de Deus, a chance de você se ferrar é grandona. Porque ele vai crescer ainda mais em cima de você. Então, eu falei: 'Tá louco, mano? Colocar uma arma na minha cabeça? Tá maluco? Tá doidão? Eu tô aqui porque o chefe da comunidade me autorizou. Você é quem?' O cara foi ficando perdidão. ‘Ah, não, não sabia que tava autorizado.’ Pá, vazou. E eu não tava autorizada porra nenhuma. Daí, eu vazei junto também. Tem hora que não tem jeito, você tem que enfrentar aquela situação para que ela não piore e não resulte numa coisa ainda pior”, conta.
A Abraji lembra que o repórter que esteja em pautas de risco deve se preparar para a cobertura, tomar as medidas de prevenção, estar em sintonia com sua redação, equipe e chefia. Vale lembrar que, na ocasião citada por Fatima, uma repórter bastante experiente já na época, ela não estava sozinha, mas com sua equipe de reportagem.
Olhar além

Foto: Acervo Pessoal
“Acho que sempre desempenhei bem a minha carreira, consegui dar muitos furos e ganhar muitos prêmios por esse interesse que tenho em parar para pensar o que mais posso fazer, aonde mais posso procurar e ir [...] Porque, quando está todo mundo no mesmo lugar, o que acontece é que todo mundo vai reportar a mesma coisa. Mas, quando você pensa em outras possibilidades e sai pela tangente, vem o furo da cobertura.”
Questionada pela reportsgem, Fatima não consegue eleger a reportagem que mais a marcou. “É até muito injusto dizer: Ah, essa foi mais ou essa foi menos. Porque você tá falando de pessoas, de vidas. Eu digo: todas as histórias foram importantes. Eu lembro de cada rosto, de cada pai, de cada mãe, de cada filho [...] Muitas histórias ficaram na minha história jornalística, mas todas ficaram na minha história pessoal.”
Apesar de não considerar a reportagem que revelou o PCC como a mais importante, admite que o trabalho marcou sua carreira. E essa apuração começou porque a repórter manteve o olhar atento, característica que considera indispensável a um bom repórter.
Na década de 90 era muito comum cobrir rebeliões em que os presos faziam o que queriam e matavam uns aos outros. Mas, em Sorocaba, aconteceu uma rebelião superorganizada: havia um comando, uma pessoa que dizia o que cada um tinha que fazer, e faixas pedindo por direitos dos presos, como alimentação. Aquilo deixou Fatima pensativa sobre o que estava acontecendo. “O que mudou tão rapidamente de tantas rebeliões confusas para essa tão organizada?”, pensou.
Ela trabalhava na Band e, 30 dias depois, descobriu que o nome do líder da rebelião era Macalé. Pediu permissão para entrevistá-lo, com a justificativa de que faria uma reportagem sobre a vida atrás das grades. Ele confirmou que, de fato, havia um comando, mas que ainda não podia revelar o nome. Dias depois, a repórter recebe uma ligação: "Oi, aqui é o Cesinha". Ela perguntou quem era, e ele respondeu: "César Augusto Roris. Eu sou um dos fundadores do PCC". E então começaram a conversar. Fatima foi avançando na apuração e fazendo reportagens com o material que eles próprios forneciam.
A repórter contou que, na época, o governo e os colegas de profissão afirmavam que ela estava mentindo, inventando sobre o PCC. Ela não se importou com a declaração do Estado, mas ficou chateada com a opinião dos colegas. Porém, o tempo e os fatos provaram que estava certa.
A jornalista do SBT destaca que é importante estudar a história do jornalismo, pesquisar os bastidores das grandes coberturas e se manter sempre atualizada. “A ignorância não pode existir para o jornalista”, pontua.
“Se alguém liga na redação e fala: ‘Eu quero falar com o repórter X’, vai e atende. Eu já vi muita gente falar: ‘Ah, não conheço, não atendo’. Não serve para ser repórter. Eu não estava na redação quando me ligaram. Me avisaram e eu voltei para a TV. Quando atendi, a pessoa disse: ‘Olha, eu sei onde mora a namorada do sequestrador da filha de Silvio Santos, Patrícia Abravanel.' A namorada participou do sequestro e era a mulher que cuidava dela no cativeiro. Eu nunca vou me esquecer. Anotei o endereço que me passou, fui até lá e era verdade. Chamei a polícia e ela foi presa. Então, por quê? Porque eu atendi o telefone."
E Fatima continua: "Tudo o que a população vai falar para você é importante. Se é alguém que só quer tirar uma foto e elogiar o seu trabalho, poxa, que bacana, que legal. Se é uma pessoa que quer te passar uma informação, escute, anote, vá atrás, porque 99% das vezes ela é verdadeira e você chega a um ponto importante da cobertura que está fazendo.”
Relacionamento com as fontes
Fidelidade, compromisso e confiança. Para a jornalista investigativa, essas três palavras são pilares no relacionamento com as fontes. O jornalista não deve trair a fonte. “A polícia vai chegar: ‘Pô, mas me fala quem te falou.' Nunca, jamais. Seja o que for”, afirmou Fatima.
Contudo, ela também ressalta a importância de estabelecer um limite na relação com as fontes. No contato com os integrantes do PCC, a jornalista sempre deixou claro que, se eles revelassem algum crime em andamento, ela avisaria a polícia. “Você pode me falar que acabaram de assaltar e levaram não sei quantos mil do aeroporto, mas se me contar que está indo assaltar o aeroporto, você vai chegar lá e encontrar a polícia esperando.”
Para construir uma rede de fontes, Fatima afirma que a atividade exige paciência e simpatia. Ela ressalta que todos podem ser fontes, desde a faxineira da delegacia até o delegado. Mas também destaca que é preciso ficar esperto e não confiar plenamente em todas as fontes, porque pode haver algum interesse pessoal envolvido. Por isso, é preciso checar e cruzar todas as informações recebidas.
Aquariana, gosta de viver no futuro
Fatima acredita que, por ser aquariana, gosta de viver no futuro e reconhece que a tecnologia facilitou o trabalho dos jornalistas. “Hoje eu falo: ‘Como fazia quando não tinha celular?’ Eu saía da redação com ficha de orelhão. Esse futuro para mim foi superimportante”. Porém, reflete que a internet também trouxe muita desinformação.
Ela acredita no jornalismo colaborativo e que os jornalistas devem se ajudar. “Acho que é muito importante. Se você tá cobrindo o mesmo caso e a gente pode dividir as informações, desde que não sejam exclusivas, não há nenhum problema.”
“Então, às vezes, um repórter não consegue chegar com o microfone no entrevistado em uma coletiva, porque ele tá muito distante. Daí eu pego o microfone e seguro o meu e o dele. Acho que isso é jornalismo colaborativo. Nunca vai passar pela minha cabeça: ‘Foda-se, porque é concorrente. Deixa ficar sem áudio.’ Não. Eu odeio repórter que chega no local com o nariz para cima. Não dá oi para ninguém, vai para o seu cantinho, faz o que tem que fazer e vai embora”, finaliza a jornalista.
Marcola
Fatima quer concretizar um objetivo que tenta há muito tempo: entrevistar Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelas autoridades como líder do PCC. Preso desde 1999, ele segue em regime fechado e acumula condenações que somam mais de 300 anos de prisão por crimes como tráfico de drogas, homicídio e associação criminosa.
A jornalista perdeu as contas de quantas vezes solicitou às autoridades permissão para entrevistar Marcola, mas o “juiz sempre nega [...] acho que não interessa nem ao governo, nem ao Judiciário que ele conte a história dele”, afirmou. “Seria importante para a história do jornalismo policial uma entrevista com o Marcola, principalmente porque ele nunca deu uma entrevista”, complementa Fatima.
Melhor idade

Foto: Instagram | @fatimasouzareporter
Com mais de 40 anos de carreira e aos 69 anos, Fatima espera continuar contando histórias na televisão com seus cabelos brancos. A repórter afirma que sente o etarismo (o preconceito e a estereotipação baseados na idade) nas redes sociais e no mercado de trabalho. E qual a resposta dela para quem a critica: “Eu tô na melhor idade, amor.”
“Não tem muitas mulheres repórteres de cabelo branco no ar. Homens de cabelo branco você vê na televisão, tanto apresentando quanto como repórteres. Porque a gente tem esses dois preconceitos. Tem o etarismo e tem o fato de achar que mulher é velha. Não. Homem pode. Homem de cabelo branco é sinal de experiência, de que sabe muito. Mulher, velha. [...] Então, eu até não entendo como tô no ar, para falar a verdade. Sabe? Porque eu continuei trabalhando. Eu nunca parei para pensar na minha idade fazendo as coisas.”
A repórter afirma que as pessoas maduras precisam lutar muito para se manter ou conseguir uma colocação no mercado de trabalho, porque a sociedade isola os mais velhos. Ela cita o exemplo de um amigo de 67 anos que procura um emprego há 10 anos. “O cara é pauteiro desde que nasceu. Desde que fizeram o parto, ele já gostou da palavra e virou pauteiro. Porque sabe tudo. Conhece todo mundo, tem muita fonte. Deve ter mais de 10.000 contatos no celular dele.”
Fatima continua conquistando o público. Não à toa, em 2025, ganhou com 77% dos votos o título de “Melhor repórter” no prêmio Melhores do Ano NaTelinha, do UOL. Sempre pioneira, também segue inspirando gerações de jornalistas. “A minha maior realização na minha carreira são essas centenas de pessoas que me procuram para dizer que fazem jornalismo inspiradas pelo meu trabalho. Isso não tem preço. É sensacional.”
Patrocinadores
Os patrocinadores desta edição estão divididos em cinco categorias.
Saiba quem são os patrocinadores, apoiadores e parceiros que tornaram o 21º Congresso possível.
Diamante: Google, TikTok
Platina: Transparência Internacional - BR (TI-BR)
Ouro: Agence Française de Développement (AFD), Globo, Jusbrasil
Prata: Alma Preta, Itaú
Bronze: Abracom (Associação Brasileira das Agências de Comunicação), Agência Pública, Amado Mundo, Instituto Sou da Paz, JSK Stanford, Oceana, piauí, Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Todos pela Educação
O evento conta ainda com o apoio institucional das organizações: CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), IACC (Conferência Internacional Anticorrupção), Instituto Talanoa, ITS Rio, Jornalistas & Cia, Projor, Posit, Transparência Internacional.
Parceria de Inclusão e Diversidade: Basília Rodrigues, Eficientes, Fundação Lemann, Instituto IDEM, YouTube.
Parceiros: Agência Mural, Airalo, Babushka, Jet Brasil Patinete, Jota Júnior, Núcleo Jornalismo, Oboré, SEJ, Textual/DiversaCom.
Organizações interessadas em patrocinar o 21º Congresso da Abraji e colocar sua marca junto ao mais importante encontro de jornalistas do Brasil podem solicitar mais informações pelo e-mail: [email protected]
Serviço
21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji
Local: Campus Paraíso da UNIP - Universidade Paulista
Endereço: Rua Vergueiro, 1.211 - Paraíso - São Paulo
Data: 30 de julho a 1º de agosto de 2026
Mais informações: congresso.abraji.org.br
FAQ: https://congresso.abraji.org.br/faq